Quando pensamos em saúde cardiovascular, nem sempre lembramos da função dos rins. No entanto, os sistemas cardiovascular, renal e metabólico estão profundamente relacionados.
Essa integração é reconhecida pelo conceito de síndrome cardiovascular-renal-metabólica, conhecida pela sigla CKM. Ela reúne as conexões entre fatores metabólicos, como diabetes e obesidade, doença renal crônica e doenças cardiovasculares.
Pessoas com doença renal crônica podem apresentar maior risco de infarto, acidente vascular cerebral (AVC), insuficiência cardíaca e outras complicações cardiovasculares. Esse risco varia conforme a função renal, a presença de albumina na urina, as condições de saúde associadas e outros fatores individuais.
Mas por que os rins são tão importantes para o coração? E como avaliar a saúde desses dois sistemas de forma integrada?
O que é doença renal crônica?
A doença renal crônica, ou DRC, é definida pela presença de alterações na estrutura ou no funcionamento dos rins que persistem por pelo menos três meses e apresentam implicações para a saúde.
Isso pode ocorrer quando a taxa de filtração glomerular estimada, conhecida como TFGe, permanece abaixo de 60 mL/min/1,73 m² ou quando existem outros sinais de lesão renal, como a presença persistente de albumina na urina.
Os rins exercem diversas funções importantes no organismo. Além de filtrar o sangue e eliminar substâncias pela urina, eles participam do controle da pressão arterial, do equilíbrio de líquidos e minerais e da produção de hormônios relacionados à formação das células do sangue e à saúde óssea.
Diabetes e hipertensão arterial estão entre as causas mais frequentes de DRC. Outras possibilidades incluem doenças inflamatórias ou hereditárias, obstruções urinárias, alterações estruturais e exposição a determinados medicamentos ou substâncias.
Como a doença renal crônica é classificada?
A classificação da DRC não depende apenas da TFGe. As diretrizes atuais recomendam considerar três componentes:
- a causa da doença renal;
- a categoria da taxa de filtração glomerular, de G1 a G5;
- a categoria de albuminúria, de A1 a A3.
A albuminúria indica a presença de albumina na urina e pode ser identificada por meio da relação albumina/creatinina urinária, também chamada de UACR.
De maneira geral, quanto menor a TFGe e maior a albuminúria, maior tende a ser o risco de progressão da doença renal e de complicações cardiovasculares. Por isso, esses dois indicadores devem ser analisados em conjunto.
Qual é a relação entre rins e coração?
A relação entre rins e coração é bidirecional: alterações renais podem afetar o sistema cardiovascular, enquanto doenças cardiovasculares podem comprometer a função dos rins.
Quando há redução da função renal, podem ocorrer retenção de sódio e líquidos, elevação da pressão arterial e alterações em sistemas hormonais envolvidos na regulação da circulação. Inflamação, anemia e alterações do metabolismo mineral também podem contribuir para o aumento do risco cardiovascular.
No sentido contrário, condições como insuficiência cardíaca e doença vascular podem reduzir o fluxo de sangue para os rins e prejudicar seu funcionamento.
Essa interação ajuda a explicar por que hipertensão, diabetes, doença renal e doenças cardiovasculares frequentemente aparecem associadas e precisam ser avaliadas de maneira integrada.
Doença renal crônica aumenta o risco cardiovascular?
Sim. A presença de DRC está associada a um risco cardiovascular mais elevado, mas esse risco não é igual para todas as pessoas.
A TFGe, a albuminúria, a idade, a pressão arterial, o colesterol, o diabetes, o tabagismo e a presença de doença cardiovascular prévia são algumas das informações consideradas na avaliação.
Em pessoas de 30 a 79 anos sem doença cardiovascular conhecida, ferramentas como o PREVENT podem auxiliar na estimativa do risco de eventos cardiovasculares em 10 e 30 anos. Desenvolvido pela American Heart Association, o escore inclui informações cardiovasculares, metabólicas e renais.
A Diretriz Brasileira de Hipertensão Arterial de 2025 sugere sua utilização na estratificação do risco cardiovascular. Entretanto, nenhuma calculadora substitui a avaliação clínica individualizada.
A doença renal crônica provoca sintomas?
A DRC pode não provocar sintomas nas fases iniciais. Por esse motivo, muitas vezes ela é identificada por meio de exames realizados em pessoas que apresentam fatores de risco.
Quando a doença está mais avançada, podem surgir manifestações como:
- inchaço nas pernas, nos tornozelos ou nos pés;
- cansaço;
- falta de ar;
- redução do apetite;
- náuseas;
- alterações no volume ou no aspecto da urina;
- dificuldade para controlar a pressão arterial.
Esses sinais não são exclusivos da doença renal e podem estar relacionados a diferentes condições. A presença de um ou mais deles deve ser avaliada por um profissional de saúde.
Quem deve conversar com um profissional sobre a avaliação dos rins?
A avaliação da função renal é especialmente importante para pessoas com:
- diabetes;
- hipertensão arterial;
- doença cardiovascular;
- histórico familiar de doença renal;
- obesidade ou outros fatores cardiometabólicos;
- uso prolongado de medicamentos com possível impacto sobre os rins;
- alterações anteriores em exames de sangue ou urina.
A investigação pode incluir a dosagem de creatinina no sangue, o cálculo da TFGe e a relação albumina/creatinina na urina. A confirmação da DRC exige evidências de que as alterações persistem por pelo menos três meses, considerando resultados anteriores, repetição de exames e o contexto clínico.
Como proteger a saúde dos rins e do coração?
Muitas medidas utilizadas na prevenção cardiovascular também contribuem para preservar a função renal. Entre elas estão:
- acompanhar e controlar a pressão arterial;
- manter o diabetes adequadamente tratado;
- não fumar;
- praticar atividade física de acordo com as condições individuais;
- adotar uma alimentação equilibrada;
- moderar o consumo de sódio;
- acompanhar o colesterol e outros fatores metabólicos;
- evitar automedicação, especialmente com medicamentos que podem afetar os rins;
- realizar consultas e exames na frequência indicada.
As metas de pressão arterial, glicemia e colesterol devem ser individualizadas. Elas podem variar conforme idade, função renal, albuminúria, presença de doença cardiovascular, tolerância ao tratamento e outras condições clínicas.
Atualmente, existem medicamentos que podem oferecer benefícios cardiovasculares e renais em grupos específicos. Entre eles estão os inibidores do sistema renina-angiotensina, os inibidores de SGLT2 e, em determinadas situações, os antagonistas não esteroidais do receptor mineralocorticoide e terapias baseadas em GLP-1.
A indicação depende das características de cada pessoa e deve ser feita por um profissional de saúde. Esses medicamentos não são necessários ou adequados para todos os casos.
Perguntas frequentes
Toda pessoa com doença renal crônica terá uma doença cardiovascular?
Não. Entretanto, a DRC está associada a um risco cardiovascular mais elevado. A intensidade desse risco depende da função renal, da albuminúria e de outros fatores clínicos.
Como a DRC é diagnosticada?
O diagnóstico pode envolver exames de sangue, exames de urina, exames de imagem e a análise do histórico clínico. Para caracterizar uma doença como crônica, a alteração deve persistir por pelo menos três meses.
A hipertensão pode causar doença renal?
Sim. A hipertensão pode provocar lesões nos vasos dos rins ao longo do tempo. A relação também ocorre no sentido inverso: alterações renais podem contribuir para o aumento e a dificuldade de controle da pressão arterial.
A doença renal crônica tem cura?
A resposta depende da causa e do tipo de alteração renal. Algumas lesões podem ser tratáveis ou parcialmente reversíveis, mas a DRC estabelecida geralmente exige acompanhamento prolongado. O tratamento pode reduzir o risco de progressão e de complicações, embora os resultados variem entre as pessoas.
O PREVENT substitui a avaliação médica?
Não. O PREVENT é uma ferramenta de apoio à estimativa de risco. Seu resultado deve ser interpretado por um profissional, em conjunto com o histórico, os exames e as características individuais.
Cuidar dos rins também é cuidar do coração
A saúde renal e a saúde cardiovascular estão conectadas. Identificar alterações na TFGe e na albuminúria, controlar condições como hipertensão e diabetes e manter acompanhamento adequado são medidas importantes para reduzir riscos e orientar o cuidado.
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A manifestação de interesse não garante a inclusão. A participação é voluntária e depende dos critérios de elegibilidade definidos em cada protocolo.

