Durante uma consulta, você talvez já tenha ouvido que seu risco cardiovascular é baixo, intermediário ou elevado. Mas como essa conclusão é alcançada?
A avaliação não se baseia em um único exame nem em uma impressão isolada. Ela reúne informações clínicas, resultados de exames e, em determinadas situações, calculadoras desenvolvidas a partir de estudos com grandes populações.
Essas ferramentas ajudam a estimar a probabilidade de uma pessoa apresentar determinados eventos cardiovasculares ao longo dos anos. O resultado não representa uma previsão exata do futuro, mas pode apoiar decisões sobre prevenção, acompanhamento e tratamento.
O que é risco cardiovascular?
Risco cardiovascular é a probabilidade estimada de uma pessoa desenvolver um evento ou uma doença cardiovascular em determinado período.
Dependendo da ferramenta utilizada, podem ser considerados desfechos como:
- infarto do miocárdio;
- acidente vascular cerebral;
- doença cardiovascular aterosclerótica;
- insuficiência cardíaca;
- morte por causas cardiovasculares.
É importante observar que as calculadoras não estimam necessariamente os mesmos desfechos. Por isso, dois resultados percentuais obtidos com ferramentas diferentes não devem ser comparados diretamente.
Quais informações fazem parte da avaliação?
A avaliação clínica pode considerar:
- idade e sexo;
- pressão arterial;
- colesterol total, LDL e HDL;
- diabetes e níveis de glicemia;
- tabagismo;
- peso e composição corporal;
- função renal;
- histórico familiar;
- doenças já diagnosticadas;
- uso de medicamentos;
- hábitos de vida;
- condições específicas que possam modificar o risco.
Nenhum desses elementos conta toda a história sozinho. O profissional analisa o conjunto das informações e verifica se uma calculadora é apropriada para aquela pessoa.
O que são calculadoras de risco cardiovascular?
As calculadoras de risco são modelos matemáticos desenvolvidos com dados de grandes estudos populacionais. Elas identificam relações entre determinadas características e a ocorrência posterior de eventos cardiovasculares.
Entre as ferramentas desenvolvidas ao longo do tempo estão:
- Escore de Framingham: um dos modelos historicamente mais conhecidos;
- Pooled Cohort Equations: utilizadas para estimar o risco de doença cardiovascular aterosclerótica;
- SCORE2 e SCORE2-OP: desenvolvidas para populações europeias;
- Globorisk: possui modelos aplicáveis ou calibrados para diferentes países;
- PREVENT: desenvolvido pela American Heart Association com dados contemporâneos de uma população ampla e diversa dos Estados Unidos.
Cada ferramenta foi construída para uma população, uma faixa etária e determinados desfechos. A escolha deve seguir o contexto clínico e as recomendações das diretrizes aplicáveis.
O que é o PREVENT?
A sigla PREVENT significa Predicting Risk of cardiovascular disease EVENTs. Suas equações foram desenvolvidas pela American Heart Association para pessoas de 30 a 79 anos sem doença cardiovascular conhecida.
A ferramenta permite estimar o risco em dez anos e, para determinados grupos, também apresentar uma perspectiva de longo prazo. Ela possui modelos relacionados a:
- doença cardiovascular total;
- doença cardiovascular aterosclerótica, que inclui eventos como infarto e AVC;
- insuficiência cardíaca.
Essa distinção é importante: o percentual fornecido pelo PREVENT depende do desfecho avaliado.
As equações foram desenvolvidas com dados de mais de 6 milhões de adultos dos Estados Unidos. Embora a diversidade dessa população seja um avanço em relação a modelos anteriores, o resultado ainda precisa ser interpretado considerando sua aplicação em outras populações, inclusive a brasileira.
Quais informações o PREVENT utiliza?
O modelo básico considera informações como:
- idade;
- sexo;
- colesterol total e HDL;
- pressão arterial sistólica;
- uso de medicamentos para a pressão;
- diabetes;
- tabagismo;
- função renal estimada pela TFGe.
As equações também contemplam variáveis relacionadas à saúde metabólica, como o índice de massa corporal. Modelos complementares podem acrescentar a hemoglobina glicada e a relação albumina/creatinina urinária.
Ao incluir informações renais e metabólicas, o PREVENT acompanha uma mudança importante na compreensão do risco cardiovascular: coração, rins e metabolismo não funcionam de maneira isolada.
Qual é a relação com a síndrome CKM?
A síndrome cardiovascular-renal-metabólica, conhecida como CKM, é um conceito proposto pela American Heart Association para representar as conexões entre:
- fatores metabólicos, como obesidade e diabetes;
- doença renal crônica;
- doenças cardiovasculares.
Alterações em um desses sistemas podem influenciar os demais. Diabetes e hipertensão, por exemplo, podem afetar simultaneamente os vasos sanguíneos, o coração e os rins.
A diretriz norte-americana sobre CKM publicada em 2026 ampliou o papel do PREVENT na avaliação integrada do risco. A Diretriz Brasileira de Hipertensão Arterial de 2025 também incorporou o escore à estratificação cardiovascular.
Isso não significa, entretanto, que o PREVENT seja a única ferramenta válida ou que deva ser usado indistintamente em todas as pessoas.
Por que a função renal influencia o risco cardiovascular?
A doença renal crônica está associada ao aumento do risco de diferentes complicações cardiovasculares. Esse risco tende a crescer à medida que a função renal diminui ou a albuminúria aumenta.
A avaliação renal pode incluir:
- creatinina no sangue;
- taxa de filtração glomerular estimada, ou TFGe;
- relação albumina/creatinina na urina.
A TFGe fornece uma estimativa da capacidade de filtração dos rins. A presença persistente de albumina na urina pode indicar lesão renal e também está associada a maior risco cardiovascular.
Esses resultados devem ser interpretados em conjunto. Uma única alteração não é suficiente, em todos os casos, para estabelecer o diagnóstico de doença renal crônica.
Nenhuma calculadora substitui a avaliação profissional
As calculadoras são ferramentas de apoio à decisão. Elas não determinam isoladamente um diagnóstico ou tratamento.
Algumas situações podem não estar plenamente representadas nas equações, como:
- histórico familiar de doença cardiovascular precoce;
- pré-eclâmpsia ou menopausa precoce;
- doenças inflamatórias e autoimunes;
- determinados resultados de exames;
- fatores sociais e condições de acesso à saúde;
- uso de alguns medicamentos;
- características individuais não incluídas no modelo.
Além disso, pessoas que já apresentam doença cardiovascular conhecida, hipercolesterolemia grave ou determinadas condições de alto risco podem precisar de uma abordagem específica, independentemente do percentual calculado.
O que acontece depois do cálculo?
O resultado ajuda a orientar uma conversa entre o profissional e o paciente. Dependendo do risco estimado e do contexto clínico, podem ser discutidos:
- hábitos alimentares;
- atividade física;
- interrupção do tabagismo;
- controle da pressão arterial;
- acompanhamento do colesterol e da glicemia;
- avaliação da saúde renal;
- necessidade de exames complementares;
- benefícios e possíveis riscos de medicamentos;
- frequência do acompanhamento.
Não existe uma conduta automática baseada apenas em uma porcentagem. Os limites que definem risco baixo, intermediário ou alto podem variar conforme a calculadora, o desfecho estimado e a diretriz adotada.
As metas de pressão arterial, colesterol e glicemia também devem ser individualizadas.
Perguntas frequentes
Qual é a diferença entre PREVENT e Framingham?
São modelos desenvolvidos em épocas, populações e contextos diferentes. O PREVENT foi construído com dados mais recentes e incorpora aspectos cardiovasculares, renais e metabólicos. Também permite estimar diferentes desfechos, incluindo insuficiência cardíaca.
Isso não significa que ele seja automaticamente a melhor ferramenta para todas as pessoas. A escolha depende do objetivo da avaliação e da diretriz utilizada.
O PREVENT substitui a avaliação médica?
Não. Ele apresenta uma estimativa estatística que deve ser interpretada no contexto clínico de cada pessoa.
Uma pessoa com risco baixo não precisa de prevenção?
Risco baixo não significa risco inexistente. Hábitos saudáveis e controle dos fatores modificáveis continuam importantes. Também é possível que uma pessoa apresente baixo risco em dez anos, em razão da idade, mas tenha risco relevante ao longo da vida.
Risco elevado significa que a pessoa terá um infarto ou AVC?
Não. O resultado representa uma probabilidade observada em pessoas com características semelhantes. Ele não permite afirmar o que acontecerá individualmente.
Todos precisam calcular o PREVENT?
Não necessariamente. A ferramenta possui critérios próprios de aplicação e não é indicada para substituir a avaliação de pessoas que já apresentam doença cardiovascular conhecida. O profissional deve decidir quando o cálculo acrescenta informação útil.
Como saber se minha função renal está alterada?
A avaliação geralmente envolve creatinina no sangue, cálculo da TFGe e exame de urina para identificar albuminúria. A interpretação depende da persistência das alterações e do contexto clínico.
Conhecer o risco ajuda a orientar a prevenção
A avaliação do risco cardiovascular transforma diferentes informações clínicas em uma estimativa que pode apoiar decisões compartilhadas.
Ferramentas como o PREVENT refletem uma compreensão mais integrada da saúde cardiovascular, renal e metabólica. Ainda assim, nenhuma equação resume completamente uma pessoa ou determina sozinha o tratamento adequado.
Conhecer o risco não significa prever o futuro. Significa reunir informações para tomar decisões mais bem fundamentadas no presente.
O CoraCentro conduz pesquisas clínicas nas áreas cardiovascular, renal e metabólica. Para conhecer os estudos com recrutamento aberto, entre em contato com nossa equipe.
A manifestação de interesse não garante a inclusão. A participação é voluntária e depende dos critérios de elegibilidade de cada protocolo. Aviso: este conteúdo tem caráter educativo e não substitui avaliação, diagnóstico ou orientação de um profissional de saúde.o.

