Você provavelmente já ouviu falar do IMC, o índice de massa corporal, aquele número que classifica as pessoas em “peso normal”, “sobrepeso” ou “obesidade”. Durante décadas, ele foi a principal ferramenta para relacionar peso e saúde. Mas será que ele conta a história completa?
A resposta curta é: não. A relação entre sobrepeso e risco cardiovascular é real e bem documentada, mas a ciência evoluiu. Em 2025, a nova diretriz brasileira de obesidade deixou claro que o IMC importa, porém não é suficiente para avaliar o risco de cada pessoa. Entender essa mudança é o primeiro passo para cuidar melhor do coração.
O que é o IMC e o que ele mostra
O IMC é calculado dividindo o peso, em quilogramas (kg), pela altura, em metros (m), ao quadrado. Segundo a classificação da Organização Mundial da Saúde (OMS), valores entre 25 e 29,9 kg/m² indicam sobrepeso, e valores iguais ou superiores a 30 kg/m² indicam obesidade.
O IMC é útil porque é barato, rápido e permite comparar grandes populações. E ele tem fundamento científico: o excesso de peso está associado a um conjunto de fatores que aumentam o risco cardiovascular, como pressão arterial elevada, colesterol alterado, diabetes tipo 2, apneia do sono e outros.
A American Heart Association (AHA), em seu posicionamento científico sobre obesidade e doença cardiovascular, reforça que a obesidade contribui diretamente para o desenvolvimento desses fatores de risco e também aumenta o risco de eventos cardiovasculares de forma independente.
O que o IMC não mostra
O problema é que o IMC trata todo mundo pelo mesmo padrão. Ele não diferencia:
- Onde a gordura está localizada — a gordura abdominal (visceral) é muito mais perigosa para o coração do que a gordura distribuída em outras regiões;
- A composição corporal — uma pessoa com muita massa muscular pode ter IMC elevado sem, necessariamente, apresentar excesso de gordura;
- A presença de doenças associadas — duas pessoas com o mesmo IMC podem ter riscos completamente diferentes.
A própria AHA destaca que a obesidade abdominal, medida pela circunferência da cintura, é um marcador de risco cardiovascular independente do IMC. Ou seja, é possível ter IMC considerado normal e, ainda assim, apresentar risco aumentado.
A nova diretriz brasileira: avaliação além do IMC
Em 2025, a Diretriz Brasileira Baseada em Evidências para o Manejo da Obesidade e Prevenção de Doenças Cardiovasculares trouxe uma mudança importante: a avaliação de adultos com sobrepeso ou obesidade deve considerar a condição cardiovascular e os fatores de risco associados.
A diretriz recomenda que a avaliação vá além do IMC, incluindo:
- Circunferência da cintura e razão cintura-quadril, para identificar obesidade abdominal;
- Estágio da obesidade, considerando a presença de doenças associadas;
- Aplicação de escores de risco, como a calculadora PREVENT, para estimar a probabilidade de eventos cardiovasculares em 10 anos;
Essa abordagem reconhece que o sobrepeso e o risco cardiovascular não podem ser avaliados por um único número. A avaliação precisa ser individualizada e é exatamente isso que a medicina moderna busca.
Como é feita a avaliação de risco cardiovascular
A avaliação de risco cardiovascular combina fatores como idade, pressão arterial, colesterol, glicemia, tabagismo e histórico familiar. O peso e a distribuição de gordura também ajudam a compor a avaliação clínica. Ferramentas como a calculadora PREVENT, da American Heart Association, incluem indicadores da função renal na estimativa do risco.
Com base no resultado, o médico classifica o risco como baixo, limítrofe, intermediário ou alto, e define a conduta mais adequada: desde mudanças no estilo de vida até tratamento medicamentoso mais intensivo.
Sinais de alerta e quando procurar avaliação
Alguns sinais merecem atenção e justificam uma avaliação médica:
- Ganho de peso recente e progressivo;
- Aumento da circunferência abdominal;
- Pressão arterial elevada ou difícil de controlar;
- Exames com glicemia ou colesterol alterados;
- Histórico familiar de doença cardiovascular ou diabetes.
É importante lembrar que esses sinais podem estar relacionados a diferentes condições — somente um profissional de saúde poderá investigar a causa corretamente e indicar a melhor abordagem.
Orientações gerais de prevenção
Independentemente do IMC, algumas medidas protegem o coração:
- Alimentação equilibrada, com redução de alimentos ultraprocessados e excesso de sódio;
- Atividade física regular, adaptada à condição de cada pessoa;
- Controle do peso de forma gradual e sustentável;
- Não fumar;
- Acompanhamento médico periódico, com exames de rotina.
A perda de peso, quando indicada, melhora o controle da pressão, da glicemia e do colesterol — e, com isso, reduz o risco cardiovascular.
Perguntas frequentes (FAQ)
1. IMC alto significa que tenho alto risco cardiovascular?
Não necessariamente. O IMC é um dos indicadores, mas a avaliação de risco cardiovascular considera também a distribuição de gordura, a presença de doenças associadas e outros fatores. Somente um profissional pode fazer essa análise completa.
2. Posso ter IMC normal e ainda ter risco cardiovascular?
Sim. A gordura abdominal, mesmo em pessoas com IMC normal, é um fator de risco independente. Por isso a circunferência da cintura entrou na avaliação recomendada pela diretriz de 2025.
3. O que mudou com a Diretriz Brasileira de Obesidade 2025?
A diretriz recomenda uma avaliação mais completa dos adultos com sobrepeso ou obesidade, considerando medidas de gordura abdominal, condições associadas e ferramentas de estimativa de risco, em vez de utilizar apenas o IMC.
4. Como é calculado o IMC?
Dividindo o peso (em kg) pela altura ao quadrado (em metros). Valores de 25 a 29,9 indicam sobrepeso; 30 ou mais indicam obesidade, segundo a OMS.
5. Perder peso reduz o risco cardiovascular?
A perda de peso, quando clinicamente indicada e acompanhada, pode melhorar fatores como pressão arterial, glicemia e colesterol, contribuindo para a redução do risco cardiovascular.
A relação entre sobrepeso e risco cardiovascular é real, mas a forma de avaliá-la mudou. O IMC continua sendo um ponto de partida útil, porém, como mostra a Diretriz Brasileira de Obesidade 2025, ele não conta a história completa. A avaliação de risco cardiovascular moderna considera a distribuição de gordura, as doenças associadas e o contexto individual de cada pessoa.
Se você tem sobrepeso, obesidade ou fatores de risco como hipertensão e diabetes, procure um profissional de saúde para uma avaliação completa. Saber o seu risco é o primeiro passo para prevenir eventos cardiovasculares.
No Coracentro, realizamos pesquisas clínicas que contribuem para o avanço do conhecimento sobre obesidade, saúde cardiovascular e novas abordagens terapêuticas. Se você tem interesse em participar de estudos clínicos, entre em contato para saber mais.
Aviso obrigatório: Este conteúdo tem caráter educativo e não substitui a avaliação, o diagnóstico ou a orientação de um profissional de saúde.
