Infarto em mulheres: um alerta que precisa ser ouvido.

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Embora o infarto agudo do miocárdio seja frequentemente associado ao público masculino e a pessoas mais idosas, evidências recentes reforçam a importância de olhar com mais atenção para a saúde cardiovascular das mulheres, especialmente na meia-idade.

Um estudo desenvolvido por pesquisadores da Pontifícia Universidade Católica do Paraná avaliou 4.896 pacientes atendidos pelo Sistema Único de Saúde em Curitiba, hospitalizados por infarto agudo do miocárdio entre 2008 e 2015. Os resultados mostraram que mulheres entre 45 e 54,9 anos apresentaram maior risco de mortalidade após o infarto quando comparadas a homens da mesma faixa etária, mesmo após ajustes para fatores clínicos. Esse achado acende um alerta importante: o risco cardiovascular feminino nessa fase da vida pode ser subestimado.

O que é o paradoxo de gênero na cardiologia?

Esse fenômeno tem sido descrito como um “paradoxo de gênero”. Tradicionalmente, considera-se que mulheres antes da menopausa tenham certa proteção cardiovascular relacionada a fatores hormonais. No entanto, os dados mostram que, em determinados grupos, especialmente em mulheres de meia-idade, essa proteção pode não ser suficiente para evitar desfechos graves após um infarto.

A transição para a menopausa, as alterações hormonais, os fatores psicossociais, o estresse crônico, as diferenças no reconhecimento dos sintomas e possíveis atrasos no atendimento podem contribuir para esse cenário. Por isso, é fundamental que a avaliação cardiovascular da mulher considere não apenas os fatores de risco tradicionais, como hipertensão, diabetes, colesterol elevado, tabagismo e obesidade, mas também aspectos específicos da saúde feminina.

Por que o diagnóstico de infarto em mulheres pode ser mais desafiador?

A dor ou desconforto no peito continua sendo uma manifestação frequente do infarto tanto em homens quanto em mulheres. No entanto, mulheres podem apresentar com maior frequência sintomas associados ou menos reconhecidos, o que pode atrasar a busca por atendimento e o diagnóstico.

Entre os sinais que merecem atenção estão:

  • falta de ar súbita ou inexplicável;
  • fadiga intensa ou fora do habitual;
  • desconforto no peito, pressão, aperto ou queimação;
  • dor ou desconforto na mandíbula, pescoço, costas, ombros ou braços;
  • náuseas, tontura, sudorese fria ou mal-estar;
  • desconforto na região do estômago, que pode ser confundido com gastrite ou má digestão.

Esses sintomas não devem ser atribuídos automaticamente à ansiedade, estresse ou problemas digestivos, especialmente quando surgem de forma súbita, persistente ou associados a mal-estar importante.

O papel da menopausa e dos hormônios no risco cardiovascular

Entre os 45 e 55 anos, muitas mulheres passam pela transição menopausal, período marcado por redução progressiva dos níveis de estrogênio. Esse hormônio tem efeitos importantes sobre o sistema cardiovascular, incluindo influência sobre a função dos vasos sanguíneos, o metabolismo lipídico e a resposta inflamatória.

Com a perda gradual dessa proteção hormonal, o risco cardiovascular pode aumentar. Por isso, essa fase da vida deve ser vista como uma janela estratégica para prevenção, rastreamento e cuidado individualizado.

Diferenças cardiovasculares que também precisam ser consideradas

Além das alterações hormonais, mulheres podem apresentar características específicas na doença arterial coronariana. Em alguns casos, há maior participação da disfunção microvascular, condição que afeta os pequenos vasos do coração e pode não ser facilmente identificada em exames convencionais.

Isso reforça a importância de uma avaliação clínica cuidadosa, especialmente quando os sintomas persistem, mesmo que exames iniciais não mostrem grandes obstruções nas artérias coronárias principais.

Como reduzir a mortalidade cardiovascular feminina?

As doenças cardiovasculares seguem entre as principais causas de morte em mulheres no Brasil e no mundo. Ainda assim, o risco feminino muitas vezes é subestimado, tanto pela população quanto pelos próprios serviços de saúde.

Para mudar esse cenário, é essencial:

  • reconhecer que o infarto também acomete mulheres jovens e de meia-idade;
  • valorizar sintomas como falta de ar, fadiga intensa, náuseas, dor em mandíbula, costas ou região epigástrica;
  • procurar atendimento imediatamente diante de sintomas suspeitos;
  • realizar avaliação rápida com eletrocardiograma e dosagem de troponina quando houver suspeita de síndrome coronariana aguda;
  • controlar fatores de risco como pressão alta, diabetes, colesterol elevado, tabagismo, sedentarismo e obesidade;
  • incluir a saúde cardiovascular nas consultas de rotina da mulher, especialmente na perimenopausa e menopausa.

Um chamado à atenção

O estudo brasileiro realizado em Curitiba reforça uma mensagem importante: o risco cardiovascular da mulher de meia-idade não deve ser subestimado. A ideia de que mulheres nessa fase ainda estão naturalmente protegidas contra eventos cardíacos pode atrasar a prevenção, o diagnóstico e o tratamento.

Reconhecer as particularidades do infarto em mulheres é um passo essencial para reduzir atrasos no atendimento, melhorar os desfechos clínicos e salvar vidas.

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