Magro por fora, em risco por dentro: a gordura intramuscular e o coração 

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Você sobe na balança e o número está dentro do esperado.
O seu IMC (Índice de Massa Corporal) indica peso adequado.
Você respira aliviado.

Mas, por dentro, a história pode ser bem diferente.

Estudos recentes publicados na revista Nature e repercutidos pela CNN chamaram atenção para um fator de risco silencioso que exames de rotina não costumam identificar: o acúmulo de gordura intramuscular.

A analogia da “carne marmorizada”

Para entender esse conceito, pense em um corte de carne como a picanha ou o wagyu.
As estrias brancas de gordura entremeadas no músculo são chamadas de gordura intramuscular.

No prato, isso significa maciez e sabor.
No corpo humano, significa disfunção metabólica e inflamação crônica.

Algumas pessoas, apesar de parecerem magras e terem IMC normal, acumulam gordura dentro dos músculos e ao redor de órgãos vitais, inclusive fígado, rins e coração. Esse fenótipo é conhecido como “obesidade metabolicamente desfavorável com peso normal”, ou popularmente, “falso magro”.

Por que essa gordura é mais perigosa que o “pneuzinho”?

A gordura subcutânea, aquela que conseguimos pinçar na barriga, funciona principalmente como reserva de energia.

Já a gordura visceral e intramuscular é metabolicamente ativa e está associada a maior risco cardiometabólico.

Ela contribui para:

  • Inflamação crônica de baixo grau
    Liberação de citocinas inflamatórias que prejudicam o endotélio vascular e aceleram a aterosclerose.
  • Resistência à insulina
    Dificulta a ação da insulina nos músculos, favorecendo o desenvolvimento de pré-diabetes e diabetes tipo 2.
  • Disfunção cardíaca associada à lipotoxicidade
    Quando há infiltração de gordura no músculo cardíaco, pode ocorrer prejuízo da função contrátil e maior risco de insuficiência cardíaca, mesmo na ausência de obesidade clássica.

O que os exames de rotina não mostram

O grande desafio é que essa condição não é detectada pelo IMC, pela balança ou pela aparência física.
Em muitos casos, ela só é identificada por:

  • exames de imagem específicos (como ressonância ou tomografia em contextos clínicos selecionados)
  • avaliação metabólica detalhada
  • análise integrada de fatores de risco cardiovasculares e renais

Por isso, pessoas com peso normal podem apresentar risco cardiovascular semelhante ao de indivíduos com sobrepeso.

Como a ciência está enfrentando esse problema

A boa notícia é que o acúmulo de gordura intramuscular pode ser reduzido.

Além de mudanças no estilo de vida, a pesquisa clínica tem investigado terapias que atuam diretamente no metabolismo muscular, melhorando a oxidação de gordura, a sensibilidade à insulina e a saúde cardiometabólica como um todo.

Essas estratégias vão além da perda de peso e focam na qualidade metabólica dos tecidos, conceito central nas diretrizes mais recentes.

Não confie apenas na balança.
Se você se considera “falso magro”, é sedentário, tem histórico familiar de doenças cardiovasculares ou alterações metabólicas, procure orientação médica.

Uma avaliação clínica adequada pode identificar riscos invisíveis ao espelho, e quanto mais cedo a intervenção, maior a chance de prevenir eventos cardíacos e renais no futuro.


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