A American Heart Association (AHA) e o American College of Cardiology (ACC) lançaram, em março de 2026, a aguardada diretriz sobre o manejo da dislipidemia. O documento substitui a versão de 2018 e estabelece uma abordagem mais ampla para a prevenção cardiovascular, com foco na redução da exposição prolongada às lipoproteínas aterogênicas ao longo da vida.
Inovações na Avaliação do Risco Cardiovascular
Uma das principais mudanças da nova diretriz é a priorização das equações PREVENT™ (Predicting Risk of cardiovascular disease EVENTs) para estimativa do risco cardiovascular. Aplicáveis a adultos de 30 a 79 anos, essas ferramentas trazem diferenciais importantes:
- Precisão ampliada: desenvolvidas a partir de amostras populacionais mais contemporâneas, refletindo melhor o perfil epidemiológico atual;
- Inclusão de variáveis biológicas: incorporam a função renal (TFGe) como componente relevante na avaliação de risco;
- Maior equidade: a variável raça foi removida das equações.
Além disso, a diretriz reforça a importância de biomarcadores complementares na estratificação cardiovascular. A dosagem da lipoproteína(a) [Lp(a)] passa a ser recomendada ao menos uma vez na vida adulta. Já a apolipoproteína B (ApoB) ganha destaque como marcador adicional, especialmente em cenários de risco residual ou discordância entre LDL-C e carga total de partículas aterogênicas.
O Escore de Cálcio Coronário (CAC) também é reforçado como ferramenta útil para reclassificação de risco em situações de incerteza clínica.
Metas de Tratamento e Precisão Laboratorial
A diretriz estabelece metas terapêuticas mais rigorosas para LDL-C e colesterol não-HDL, especialmente em pacientes de alto risco cardiovascular. Para indivíduos em prevenção secundária com doença cardiovascular aterosclerótica (ASCVD) de muito alto risco, a recomendação é manter:
- LDL-C abaixo de 55 mg/dL
- não-HDL-C abaixo de 85 mg/dL
Outro ponto importante é a recomendação de métodos mais precisos para cálculo do LDL-C. A diretriz passa a priorizar equações como Martin/Hopkins e Sampson/NIH, reduzindo a dependência da tradicional Equação de Friedewald em cenários específicos.
A estratégia terapêutica continua baseada em um modelo escalonado:
- Terapia inicial: estatinas na maior dose tolerada;
- Intensificação: associação de ezetimiba quando as metas não forem atingidas;
- Terapias adicionais: uso de inibidores de PCSK9 ou ácido bempedoico conforme avaliação clínica.
Abordagens Personalizadas para Populações Específicas
A diretriz de 2026 também dedica atenção a populações e condições clínicas que exigem individualização do manejo lipídico. As recomendações incluem discussões voltadas a pacientes com diferentes perfis de risco cardiovascular e condições crônicas associadas.
O documento também incorpora evidências mais recentes relacionadas a terapias hipolipemiantes, ampliando as possibilidades terapêuticas disponíveis para médicos e pacientes.
Foco na Prevenção ao Longo da Vida
O conceito central da nova diretriz é a prevenção cardiovascular contínua e precoce. A proposta é reduzir o acúmulo progressivo de danos arteriais ao longo das décadas, reforçando estratégias de controle lipídico antes do surgimento de eventos cardiovasculares graves.
Com isso, a atualização da AHA/ACC 2026 reforça uma tendência crescente na cardiologia moderna: a personalização do cuidado cardiovascular com base em risco individual, biomarcadores e prevenção de longo prazo.

